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Mundo Paralelo – O rio e a cidade

Antes da chegada do homem e com ele a cidade, havia naquela região um rio que possuia uma turma de amigos, que lhe garantiam abrigo e proteção. A turma era formada pelas nascentes, árvores, solo e animais. As nascentes davam corpo ao rio, as árvores davam sombra e garantiam que o solo não caisse pra dentro do leito. Os animais ajudavam a espalhar a semente das árvores e também eram beneficiados com abrigo e proteção.

Mas aos poucos aquela paz e tranquilidade foi sendo substituída pelo barulho de humanos e seus equipamentos e máquinas. Um barulho incomum, nunca ouvido antes começou a assustar a todos. Era um zumbido. Na verdade era o barulho de motoserras e motores de tratores. Os pássaros se assustaram e sairam em revoada, alguns mais curiosos observaram de cima o que aconteciam e trouxeram as notícias para os companheiros. Os mais pessimistas disseram que era o fim do mundo e puseram-se a chorar. As árvores, com seus sistema de raízes que lembram os neurônios, espalharam a notícia de que muito sofrimento estava por chegar. Os animais da terra correram para locais mais distantes, alguns abandoram seu filhotes na esperança de que tudo iria passar.

Não foi bem assim e infelizmente muitos se depararam com um fogo intenso que consumia o mato seco. Era época de estiagem e o combustível para o fogo era abundante, e assim ele se alastrou rapidamente. Animais lentos ficaram presos em meio as chamas. Os filhotes deixados não tiveram como se salvar. Várias árvores que ainda não haviam sido derrubadas pelas máquinas dos homens foram inteiramente consumidas pelas chamas.

Após algumas horas uma clareira enorme se abriu e mais homens e máquinas apareceram. Traziam consigo objetos que bichos e árvores não entendiam. Era ferro, tijolos, telhas, cimento e outros materiais. Das árvores derrubadas se retirou a madeira e também delas se fez o carvão para abastecer os seus fornos. O rio que a tudo assistia sem nada poder fazer logo se viu sendo ferido. Dele se retirou água, areia e das margens a lama, para fazer mais tijolos e telhas para as construções que aos poucos iam aparecendo. As nascentes que existiam ao longo de uma boa parte do seu trecho começaram a sumir.

Os pássaros assistiam a tudo atônitos, amedrontados e desorientados. Aquela harmonia deixou de existir. As árvores que restaram naquele espaço não sabiam se iriam permanecer ali, estavam em estado de choque e muito sofreram. Para elas era o fim.

Ao longo de dias a paisagem foi sendo drasticamente alterada, a turma sempre tão unida foi despedaçada. E a ocupação dos humanos cada dia foi crescendo mais e mais. As árvores que ainda tinham esperança de se manter em pé foram sumindo. Centenas de anos de experiência se acabaram em minutos. Buritis, Jatobás, Barus, Pequizeiros, Ipês e tantas outras deixaram de existir.

Os animais desorientados mudavam-se constantemente de local, fugindo das ocupações e perseguições. Alguns que tentaram se aproximar foram mortos, mal sabiam eles que alguns homens até se divertiam em matá-los, outros sentiam apenas medo. Muitos desses animais eram caçados para virarem comida daqueles que trabalhavam na grande clareira.

O rio sempre tão popular e envolto por sua turma de amigos se viu sozinho, desnudo, completamente desprotegido. Estava sentindo na pele os efeitos daquela ocupação. Logo na primeira chuva ficou ainda mais evidente que muito sofrimento estava por chegar. No trecho da destruição o rio foi ficando mais raso, suas margens foram caindo, cadáveres de árvores e restos de bichos enchiam seu leito. Para o rio aqueles homens que dizimaram sua turma não eram seus amigos. Como poderiam ser? Eram cruéis, não eram como os outros bichos, faltava amor.

Anos se passaram e novos humanos chegaram e foram ocupando o que eles chamavam de cidade. A água do rio foi sendo retirada para matar a sede daquelas pessoas, que depois jogavam seus restos de volta nele, que pouco a pouco foi adoecendo, se tornando escuro e mal cheiroso. As poucas árvores que ainda existiam em suas margens notaram a mudança. Muitos animais que estavam abaixo da cidade, num local ainda conservado torciam o nariz por causa daquela água suja. Os peixes migraram para outros locais pois ali não conseguiam viver. Quanto mais a cidade crescia mais as coisas pioravam. Na seca o rio ficava com pouca água, na chuva era tanta água que ele não suportava sua força e destruia tudo ao seu redor, até mesmo suas amigas árvores.

E quando o rio achava que tudo estava perdido, aos poucos algumas pessoas foram aparecendo, não para destruir, mas para tentar salvar aquele que no início era um rio muito bonito, que dava orgulho para toda sua turma. O rio começou a perceber que nem todos os humanos eram maus como ele sempre imaginou, Ele viu que existiam aqueles que realmente tinham um bom coração e estavam dispostos a ajudar.

Foi então que o rio aos poucos foi recuperando parte de sua saúde, a população se uniu em prol daquelas águas e comprou briga com o poder público. Foi uma luta de gigantes. A vitória veio e milhares de árvores começaram a ser plantadas ao longo das margens, novos parques surgiram, corredores verdes foram se estendendo por toda a cidade. Os bichos, meio desconfiados, começaram a voltar a essa nova vida. Os esgotos passaram a ser tratados, e o destino dos resíduos e lixos da cidade seguiam para o caminho certo. Assim, grato por tudo o que estava acontecendo, o rio fez novos amigos, que também se importavam com ele, e sua turma cresceu e com ele toda a sua alegria.

Essa estória teve um final feliz, mas quantos finais assim esperamos para nossa realidade? Essa é uma luta árdua e acontece todos os dias nas milhares de cidades que existem no Brasil e no mundo. Algumas vitórias e muitas derrotas são um constante na vida dessas pessoas que doam um pouco da sua vida em prol de um lugar melhor para todos. Afinal de contas, o motivo da cidade ter crescido ali foi justamente por haver um rio. Água é vida, nada mais justo do que tratar o rio com toda importância e respeito que ele merece. Sabemos que a marcha do progresso é inevitável e que as cidades se tornarão cada vez maiores, por isso é tão importante discutirmos esses assuntos no nosso dia a dia e partir para a ação. É possível sim nos desenvolvermos em harmonia com a natureza, com as matas, os rios. Somos todos parte do meio ambiente, qualquer grande mudança afeta a todos. Uma cidade que respeita suas árvores, seus animais e seus rios é uma cidade com uma população mais saudável, fisica e psicologicamente.

Para conhecer as outras estórias da série, clique aqui.

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