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Ouvindo o Arrudas

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O Arrudas é um ribeirão que passa pela região metropolitana de Belo Horizonte MG, e que sofre com os efeitos da expansão urbana, como a grande maioria dos mananciais que cortam as cidades de nosso Brasil.

Ouvindo o Arrudas em  2009

OSVALDO FERREIRA VALENTE

ovalente@tdnet.com.br

Professor titular aposentado da UFV e especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas

Em recente editorial, este jornal chamou a  atenção do leitor para o tamanho do desafio que representam as constantes enchentes do Ribeirão Arrudas e seus afluentes e que atingem boa parte da Grande BH. Ao lê-lo, fiquei imaginando o que diria o próprio Ribeirão.  Resolvi fazer-lhe uma visita  e provocá-lo. Deu certo e ouvi o seguinte, extraído do sussurrar de suas águas:

– Meu caro amigo e observador, aqui estou eu na luta para defender o meu território, ou seja, aquela área que  levei  milhares de anos esculpindo para a minha circulação em tempos de chuvas fortes. Aquelas duas margens, marcadas pelo rebaixamento em relação às  vizinhas, era o meu leito maior, mas resolveram aterrá-las, construir casas, atravessá-las com pontes estreitas, ou até mesmo usá-las para  abertura de  ruas (a tal Avenida Tereza Cristina, por exemplo). Pior ainda, impermeabilizaram a minha bacia e as águas de  chuvas não mais se dirigem aos meus reservatórios subterrâneos. Qualquer chuvinha mais forte, nos dias atuais, obriga-me a transportar grandes volumes de água em pouco tempo. Acabo, sem outra alternativa,  invadindo os espaços que me foram tomados  e termino   responsabilizado pelas tragédias resultantes.

Como o Arrudas parece ter ficado triste,  calando por alguns minutos, tive tempo de analisar suas queixas e pensar em provocá-lo a respeito das ações que estão sendo ventiladas para sua bacia hidrográfica. Mas ele parece ter penetrado em meus pensamentos e voltou a fazer novas considerações:

– Pois é, vocês são muito engraçados, isolaram (pela impermeabilização) o reservatório natural formado pelos lençóis de água subterrâneos e agora pensam em gastar milhões para construção de outros superficiais. Eu sei que muita gente está pensando em ganhar muito dinheiro com tais obras, mas  eu também sei o que estão fazendo com a minha bacia  e não confio nas receitas prescritas. Fiquei assustado quando ouvi que pensam em gastar dois milhões de reais para a implantação de um sistema de monitoramento  e gostaria de saber como surgem esses valores, assim de repente. Não tenho visto especialistas por aqui, mas muitos palpiteiros. Ficaria feliz se a minha bacia fosse bem analisada por pessoas realmente entendidas no assunto. Por que a Prefeitura e o Estado não promovem mesas-redondas com especialistas que não tenham interesses comerciais sobre os meus domínios e possam, assim, ter propostas mais apropriadas para os meus problemas? Por que não tentam  encontrar meios de recarregar os meus lençóis subterrâneos? Por que não pensam em  reter água em um  grande número de pontos? Pensem um pouco sobre as perguntas e venha colaborar comigo, cobrando ações baseadas nos fundamentos hidrológicos  da minha existência.

Calou-se repentinamente. Parece ter-se aborrecido e retomou seu caminho em direção ao Rio das Velhas. Gostaria de ouvi-lo mais e levar autoridades comigo.

Dica do Blog de Apolo Heringer Lisboa

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