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Meco, leve-me junto no seu embornal

vereda

Altair Sales Barbosa*
Publicado no jornal “TRIBUNA DO PLANALTO” em 15/04/2006

Quando da última passagem do cometa de Halley, próximo à orbita da Terra, me encontrava num local que denominei “paraíso”. Muitas lagoas, as veredas se perdiam nas vastidões dos olhares. Caminhando a pé com um grupo de pesquisadores, andávamos dias por entre as vegetações variadas do cerrado. Estávamos buscando afloramentos de arenito silicificado para encontrarmos os vestígios da nossa ancestralidade indígena. Num certo momento, em meio às reflexões e indagações que orientavam nossas noites no acampamento, indaguei ao grupo: será que, quando da próxima vinda do Cometa, este paraíso ainda existirá, para que nossos filhos, e talvez netos, possam ter o privilégio de ver as cenas que hoje tanto nos embelezam?

Neste momento, um dos pesquisadores da equipe, professor Binômino da Costa Lima, o maior entendedor dos segredos do cerrado, conhecido na região de Jataí por “Seu Meco”, disse (não sei se falou sério ou em tom de brincadeira, mas assim ele falou): se nossos governantes e instituições permitirem a destruição desse paraíso e eu ainda me encontrar vivo, não suportarei tamanha dor, pegarei meu embornal, embrenharei por um caminho que só eu conheço, até encontrar minha fonte d’água preferida. Lá descansarei numa pedra e, ouvindo os sons dos passarinhos, tentarei recuperar minhas forças enfraquecidas.

Realmente aquele local era o paraíso! O cerrado viçoso esparramava o cheiro dos frutos que aromatizava as fontes, que jorravam águas para as veredas. Aqui e acolá, avistavam-se bandos de emas, veados do campo e tantos outros animais que nossos olhos brilhavam de alegria. Era tempo de árvores, tempo de rios, tempo de brisas, tempo de inspiração e tempo de muita esperança. Esperança nos homens e, acima de tudo, esperança nos caminhos que a Universidade estava tomando. Era tempo de busca. Busca de novos horizontes, busca de saberes novos e a Universidade se abria às vozes, aos sons e à sabedoria das populações tradicionais, que naquela época ainda estavam fincadas naqueles longínquos rincões. No caminho das águas uma árvore velha observa a velha senhora. Elas são do mesmo tamanho. Elas têm a mesma raiz. Estão ambas sentadas sobre as pedras. Vem a chuva e elas abrem a boca. Vem a tempestade e elas se fincam nas pedras. Vem o sol e elas bebem a chuva. Se curvam diante do sol, como se murchassem. Elas reverenciam.

O tempo ainda não trouxe novamente o Cometa de Halley, passaram-se só 20 anos, mas trouxe a destruição de um edifício de sonhos. São tempos de destruição, tempos murchos.
As plantas do verdejante cerrado foram jogadas ao chão, muitas viraram carvão. As nascentes, que outrora fervilhavam, minguaram lentamente, deixando exposto em alguns locais um torrão endurecido, semelhante a formigueiro abandonado. As lagoas se transformaram em gotas d’água, os covais e os chapadões ostentam extensas monoculturas na época das águas. Quando chega a seca, só se vê no local sombrias nuvens de poeiras. A velha e a árvore mudaram não sei pra onde. No coração certamente não mais carregam uma flor, talvez uma grande dor.

Neste processo, o tempo dos homens falou mais alto, os políticos foram guiados pelo tempo do imediatismo, as transformações vieram pelo tempo acelerado da tecnologia que acentua o tempo do capital excludente,  que gera o tempo da alienação, que criou o tempo do “estranho no ninho” que se debate esperando o tempo…

Hoje o tempo da modernidade é capaz de colocar valor em tudo, até no universo, mas não é capaz de valorar a vida. Por isso, professor Meco, quando se embrenhar por aquele caminho, me leve junto no seu embornal, quem sabe encontraremos a semente geradora de um novo universo.

*Dr. Altair Sales Barbosa, titular do Instituto do Trópico Subúmido da UCG

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